Perturbações de humor intensas – como lidar e quais são as causas e sintomas?
- Liliana Portela
- 31 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de jan.
O ser humano não assiste aos acontecimentos da sua vida de uma forma neutra. Todas as vivências nos afetam, de algum modo. É esta afetividade que confere a cada momento uma sensação subjetiva, que nos permite orientar o comportamento mediante os diferentes objetivos. Todos nós sentimos mudanças de humor.
Por vezes sentimo-nos felizes e confiantes com o mundo que nos rodeia. Outras, a tristeza ou o desânimo podem surgir e o mundo parece pesado e sem cor, podendo estes diferentes sentimentos serem vividos no espaço de um dia, sem que este aspeto seja patológico e interfira de forma desadequada na nossa vida. A tristeza e a alegria são emoções básicas normais do quotidiano e são diferentes da depressão e mania, que caracterizam as perturbações de humor. A tristeza é uma resposta natural a um acontecimento de vida específico negativo, como a perda, circunscrita no tempo e que se atenua num espaço temporal. Contudo, quando estas mudanças de humor ocorrem de uma forma extrema e repetida, interferindo no normal funcionamento e alterando significativamente a forma de estar, sentir e pensar, com consequências gravosas para o bem-estar psicológico e físico, que tanto a própria pessoas como as pessoas mais próximas, sentem que algo pode não estar bem. Nessas situações podemos estar perante uma perturbação de humor. As perturbações de humor são aquelas nos quais o sintoma central é a alteração do humor ou do afeto, que afeta diversas áreas da vida do indivíduo (profissional, familiar, social...). São perturbações de saúde mental nas quais as alterações emocionais consistem em períodos prolongados de tristeza excessiva, de exaltação excessiva ou euforia, ou ambos. A depressão e a mania representam os dois extremos opostos, ou polos, das perturbações de humor.
CAUSAS:
Considera-se que na etiologia das Perturbações de Humor interagem fatores de várias ordens: fatores hereditários, psicológicos e sociais. Existe uma predisposição hereditária para alguns tipos de Perturbações de Humor,sabendo-se que estas têm uma maior incidência entre pais, filhos e irmãos (nomeadamente gémeos monozigóticos). Sabe-se, por exemplo, que gémeos de doentes com certas depressões, têm cerca de 70% a 80% de probabilidades de vir a ter a doença, mesmo que vivam em ambientes diferente. Os fatores psicológicos têm também um papel significativo na origem das Perturbações de Humor, sobretudo nas perturbações depressivas, considerando-se nomeadamente que as mudanças ocorridas na depressão são em muito dependentes de perdas de autoestima. São também entendidos como possíveis precipitantes da depressão, a perda ou falha em obter amor, o experienciar comportamentos ou sentimentos que podem fazer com que o sujeito se sinta culpado ou sem valor, a dificuldade ou incapacidade em atingir metas realistas ou irrealistas, assim como a separação do objeto amado (tanto na infância/adolescência como na idade adulta). O tipo de personalidade, os recursos internos e estratégias de coping, podem também correlacionar-se com uma maior predisposição para crises depressivas. Os fatores sociais têm também influência na manifestação da depressão. Embora possa afetar pessoas de todas as idades e de todas os estratos sociais, o risco de depressão aumenta com a pobreza, desemprego, doenças físicas e problemas causadas pelo uso de álcool e drogas. Os acontecimentos traumáticos da vida contribuem também para o aparecimento da depressão. Problemas familiares, o stress diário, a morte de alguém próximo, as doenças, uma crise financeira, conflitos prolongados, podem funcionar como desencadeantes ou facilitadores de episódios depressivos. Os conhecimentos atuais da ciência, permitem também evidenciar a existência de alterações em algumas substâncias cerebrais (neurotransmissores), na depressão. O Síndrome do Cólon Irritável e eventos adversos de vida na infância são considerados fatores de risco para a Perturbação Bipolar.
COMO LIDAR?
Existem meios para tratar as perturbações de humor. Dependendo do tipo e gravidade da perturbação de humor, incluem-se a psicoterapia, farmacoterapia ou combinação de ambas. Uma rede de suporte sólida e a prática de atividade física constituem também contributos significativos para o tratamento das perturbações de humor. A psicoterapia EMDR, terapia de dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular, demonstrou evidência na Perturbação Bipolar com perturbação de stresse pós-traumático ou eventos traumáticos da vida, sendo também eficaz no tratamento da depressão. A psicoterapia EMDR é efetuada por psicólogos e médicos psiquiatras com formação específica para a realização da mesma. No que respeita à farmacoterapia, as crises depressivas são tratadas com medicamentos antidepressivos e as crises de mania tratam-se com estabilizadores do humor, cuja ação terapêutica diminui muito a probabilidade de recaídas, tanto das crises de depressão como de mania, bem como com medicamentos neurolépticos antipsicóticos. A escolha do tratamento farmacológico é da competência de médicos psiquiatras. Artigo publicado em: http://www.misericordiadeleiria.pt/noticia-pag.asp?t=paginas&pid=394
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